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Uma Casa em Construção
Publicado às 16:06 em 3/3/2008

Ao entrar em seu apartamento, Renata não encontra nada, só o vazio. E é justamente este vazio, o ponto de partida de "Casa Número Nada", monólogo em construção pela atriz Mariana Freire (As Coisas Boas da Vida / A Casa de Bernarda Alba). A personagem transita entre a razão e a loucura, a perda dos bens materiais e o encontro com os questionamentos da vida.

A partir deste conflito, os seus pensamentos caminham em direções contrárias e necessárias. Ser feliz ou infeliz? Simplesmente viver ou morrer? Resolver suas inúmeras questões ou buscar os problemas? E é essa a busca maior de Renata, que é algo inerente a todo e qualquer ser humano, mesmo inconscientemente, mesmo que tardia. A busca do Édipo Rei, de Sófocles, do Hamlet de Shakespeare, mas também a busca do padeiro da esquina, do motorista de ônibus, dos nossos pais, a nossa busca.

"Casa Número Nada", que incialmente teria a direção da coreógrafa, educadora e também atriz Meran Vargens (Baile de Máscaras / Extraordinárias Maneiras de Amar, recebendo, por este, o Prêmio Copene de Teatro – Melhor Atriz – 2001) e agora está sendo dirigido pelo não menos renomado e íntimo dos monólogos Fábio Vidal (Múrmúrios / O Erê / Seu Bonfim), foi contemplado com o Prêmio Manuel Lopes Pontes, através do Faz Cultura, Governo do Estado da Bahia, Secretária da Fazenda e Secretaria da Cultura. E tem estréia prevista para 04 de abril de 2008, no Teatro Espaço Xisto Bahia.

Além de um ótimo exercício para a já renomada atriz baiana Mariana Freire, o espetáculo faz parte de um projeto inovador, que vai muito além das apresentações. O público poderá participar do processo de elaboração, através de debates, após os Ensaios Abertos realizados todas as sextas-feiras, em uma das salas do Espaço Xisto Bahia, de oficinas oferecidas para escolas públicas, de documentário e exposição de fotos no foyer do teatro.

A montagem será uma célula do espetáculo Uma Trilogia Baiana – Cidade Real, Cidade Fantástica, Cidade Expressa, também, dirigido por Meran, em 2003, dividido em três partes, em três dias e pequenos monólogos, interpretados por vários atores, dentre eles, a própria Mariana, que, agora, junto com a diretora, com a resposta do público nos ensaios abertos e com suas necessidades atuais, adaptará e construirá o texto. Fui ao ensaio realizado no dia 29 de fevereiro e me encantei com a proposta. O texto realmente está em construção e, com certeza, será o seu maior desafio. A idéia de abrir espaço para um bate-papo com o público nesse processo, só faz fortalecer a intimidade, a cumplicidade e a parceria entre o intérprete e o espectador. E todo processo construído com base, amadurecimento, troca e confiança já é sinônimo de sucesso.

Em Senhora dos Afogados, espetáculo do Curso Livre de Teatro da UFBA, direção de Paulo Cunha, foi a primeira vez vi Mariana no palco e a mais recente foi em As Coisas Boas da Vida, sob a direção de João Sanches, ainda em cartaz no Teatro XVIII. Doze anos separam esses dois espetáculos, permeados por um desfile outros milhares de trabalhos não menos brilhantes.

Agora para a atriz, mais madura e já formada pela Escola de Teatro da UFBA, nada melhor do que comemorar essa passagem sozinha. Sozinha, mas em boa companhia. A nossa companhia. Vamos aos ensaios, vamos à temporada. Vamos com o coração aberto e com vontade de acrescentar, como um espectador atento, mas que ainda vê o teatro com pureza e leveza. Vamos, críticos, mas com boas energias.

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Ó PAÍ ó!!!!
Publicado às 16:50 em 21/2/2008

Antigamente só os baianos compreendiam e diziam Ó PAÍ ó, forma particular e regional de dizer “Olhe para aí, ó”. Mas, após a explosão do filme estrelado por Lázaro Ramos, Wagner Moura e o Bando de Teatro Olodum, essa expressão tomou conta do Brasil.

Na verdade, Ó PAÍ ó também é o nome da peça, interpretada pelo Bando de Teatro Olodum e dirigida por Márcio Meirelles, que serviu de inspiração para o filme de Monique Gardemberg. O espetáculo surgiu em 1992 e faz parte da Trilogia do Pelô, composta também por “Essa é a Nossa Praia” e “Bai Bai Pelô,” responsável pelo surgimento do Bando.

A história ocorre num cortiço localizado no Centro Histórico, onde habitam os personagens mais variados, desde músicos, travestis, prostitutas, vendedoras de acarajé e muitos outros tipos comuns de baianos. Numa terça-feira, dia da famosa “Benção do Pelô”, em meio à preparação para esse evento, esses moradores se vêem obrigados a enfrentar a tirania da dona do cortiço, o aumento do extermínio das crianças da área e inúmeros problemas encontrados num Pelourinho antes da reforma.

O maior mérito da montagem, sem dúvida, é que, apesar de tudo ser retratado com humor e deboche, não se perde o teor crítico e de denúncia, nem tão pouco, o compromisso com as questões sociais, tão presentes na trajetória do Bando. Bem diferente do excessivo folclore apresentado na versão cinematográfica, onde os estereótipos tomam conta, em detrimento da crítica social. A peça fala sobre respeito, sem desrespeitar, fala de diferenças, de direitos e, principalmente, de identidade. Os tipos riem de si mesmos, mas com reivindicação, com aprofundamento e fundamento.

Quando a peça estreou, atraiu milhares de pessoas, de diversas classes e foi um dos instrumentos responsáveis pela discussão em torno das possíveis melhorias para o antigo e, até então, decadente Centro Histórico. Mas, na verdade, nem é de bom tom comparar as duas versões, já que teatro e cinema, apesar de caminharem juntos, são linguagens distintas.

Verdade seja dita, Ó PAÍ ó caiu no gosto popular, a ponto de já estar sendo preparada, pela Rede Globo, a versão televisiva. Com certeza, a intenção é somar. E a nossa, aplaudir. Com discernimento, é lógico!

Ó PAÍ ó pode ainda ser visto nos dias 23 e 24 de fevereiro, no Teatro Vila Velha, às 20 horas.

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As Coisas Boas da Vida
Publicado às 13:00 em 11/2/2008

É verão em Salvador, mas ninguém pode reclamar que não se pode ir ao teatro nessa época. Inclusive, nada melhor do que ir ao Pelourinho e, de quebra, assistir a um espetáculo divertido, leve e interessante. Primeiro nós curtimos Pague Pra Ver (2006/2007), agora novamente por R$ 4,00 (quatro reais) pagamos para ver As Coisas Boas da Vida. E quem não quer saber quais são as coisas boas da vida? Quem pode nos ajudar nessa busca é o novo espetáculo da Tribo do XVIII, em cartaz no Theatro XVIII, todos os sábados e domingos, até o dia 2 de março.

As Coisas Boas da Vida, de Aninha Franco, tem agora uma nova montagem. Sua estréia foi em 1998, com a direção de Ana Kfouri e interpretação de Rita Assemany, Nadja Turenko e Ricardo Castro. Em comemoração aos 10 anos do Theatro XVIII, surgiu o convite para essa releitura, que conta agora com a talentosa direção de João Sanches e interpretação dos não menos talentosos atores Igor Epifânio, Mariana Freire e Widoto Áquila.

O texto é despretensioso, sem deixar de ser reflexivo. Ninguém vá para lá achando que irá encontrar a fórmula da jujuba. O que acontece são brincadeiras e sugestões sobre quais seriam as coisas boas da vida. Os atores estão seguros, lindos e inteiros, de forma que saímos do teatro com vontade de correr para uma praia, um show, uma biblioteca, um restaurante... Enfim, loucos para fazer coisas que a gente sempre deixa para um amanhã que pode nunca chegar.

 

O trabalho de corpo está impecável. Ponto também para o preparador Ricardo Fagundes. Não é só uma questão de corpos esculturais, malhados, divididos. São corpos prontos, emocionalmente envolvidos e desprendidos. Com certeza, um sonho de consumo para todos. Atores ou não.

A direção é precisa em todos os detalhes, desde o figurino e o cenário práticos de Miguel Carvalho à Direção Musical de Leonardo Bittencourt, que como em Pague Pra Ver, executa as músicas, ao vivo, no palco.

Enfim, As Coisas Boas da Vida, é uma celebração, é uma festa, é um convite ao prazer, a diversão, ao teatro e a ser feliz. Teatro também é isso. Né não?

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Uma Bofetada Mais do que Necessária
Publicado às 10:00 em 18/1/2008

Ainda com as cortinas fechadas duas figuras, visivelmente engraçadas, entram pela platéia do teatro. Uma, quase uma Bárbie, num modelito cor de rosa e, a outra, num preto Mortícia Addams. A partir dali, é um desfile de piadas para todos os que não tiveram a sorte de entrar antes delas. É impagável a rapidez e sagacidade com que as duas destilam seus comentários para todos que entram ou para todos que de, alguma forma, chamam atenção na platéia.

Os nomes dessas figuras são Vânia Leão e Dirce Mendonça, personagens, atualmente, interpretadas pelos atores Nilson Rocha e Jarbas Oliver, respectivamente, no espetáculo A Bofetada. O elenco atual já está no espetáculo há mais de três anos e conta também com Bubba de Campos e Lelo Filho, que, há alguns anos, também assina a direção. E é com o espírito despretensioso, polêmico, divertido e positivo que começa e termina esse espetáculo, que completará 20 anos, em 24 de novembro, deste ano. Isso, sem patrocínio. Isso, em pleno verão. Isso, numa terra onde a música é a principal atração. É, realmente, um feito digno de aplausos e de admiração.

Há alguns anos, fui trabalhar com eles nos bastidores e, por isso, pude assisti-los bilhões de vezes, a ponto de, a cada dia, escolher uma personagem para observar durante a apresentação, vendo a construção das piadas, os truques, os foras, os erros, os acertos, o rir de si mesmo e dos outros... Quem não gosta de rir, hein? Tem coisa melhor do que rir dos outros e de si mesmo? Muitas vezes, me pegava rindo sozinha por ter visto algum deles, fazendo algo que, quem assistiu uma ou duas vezes apenas, talvez não tenha percebido. Eles não são travestis fazendo teatro (nada contra, mas não é o caso, cada qual com a sua história e seu processo), são atores interpretando personagens femininos, com todas as suas sutilezas.

Confesso que fiquei surpresa quando soube que A Bofetada voltaria a cartaz, agora, em janeiro. Não foi por considerá-lo desnecessário e batido, muito pelo contrário. Quem foi que disse que o besteirol saiu de moda? Quem não se diverte, mesmo morrendo de vergonha de ser descoberto por Vânia e Dirce? Quem não curte Eleonora, a Rainha Maria I, Camila, Helena, Araci, O Ponto, Pandora Luzia e Fanta Maria? Inclusive, quem não se identifica com o desabafo da lendária Fanta? Quem não acha algo na vida “a sua cara”? Quem não se reconhece em, pelo menos, uma das falas de algum personagem? Isso, aliás, pode ser um dos (são muitos) grandes segredos positivos do espetáculo: a identificação com a platéia.

É claro que a gente sempre quer mais, quer ver outras coisas, até da própria Companhia, quer conhecer outros personagens, outros gêneros, outros sotaques, outros figurinos, outros diretores, outros teatros, mas nesse bate e volta, nesse ir e vir da cultura e da vida, A Bofetada sobrevive, e, com certeza, foi uma das grandes responsáveis pelo resgate do público, numa época onde a prática de ir ao teatro estava um tanto esquecida.

 

Portanto, é bom que o besteirol não acabe mesmo. Porque nesse “querer mais”, a gente precisa somar e sobreviver, com patrocínio, muitas vezes, sem patrocínio, mas seguindo a diante, sempre. Com alegria e, principalmente, qualidade. Inclusive, muitas outras coisas existem. Há muito tempo. Até muito antes de se ter consciência de que o que se fazia ali era teatro, lá na Grécia. A gente é que ainda não soube dar o devido valor. A gente teima em diminuir, ao invés de somar. E isso é perder o foco. Tem muito Shakespeare ruim, muito Nelson Rodrigues ruim, muito Sófocles ruim, muito besteirol ruim por aí. Importante não é o que se faz e, sim, como se faz e para quem se faz. Seguindo e andando para frente, sempre. Tem também muita coisa a ser aplaudida por aí, basta olharmos tudo com um pouco mais de generosidade. Quem não gosta, também tem direito. É livre. Mas com leveza. Sempre.

Se você já viu, é sempre tempo de rever. Se nunca viu, nunca é tarde para uma primeira vez. Muito mais do que um espetáculo A Bofetada é um vício, que mantém viva a arte de fazer rir... Um vício bom e sem contra-indicações. E eu super indico!

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Patrícia Rammos é atriz, Bacharel em Interpretação Teatral pela Escola de Teatro, Universidade Federal da Bahia, desde 2001. No Teatro, atuou nos espetáculos Pedro e a cobra-de-fogo, Ora, Bolas, Irmã Dulce, Cinderela Black Power entre outras produções.

No cinema, atuou nos curtas “O Homem Mais Insuportável do Mundo”, “Uma Canção” e “Negros em Movimento”. Atuou na TV e no Rádio como apresentadora em diversos eventos e programas.Apresentou o Projeto Música no Porto, esteve na Produção Executiva de Policarpo Quaresma e atualmente está em cartaz com o espetáculo Pedro e a cobra-de-fogo.
 

 

 









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